segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Sem Titulo - 1
1-
Era uma terça-feira de primavera com um fim de tarde quente quando o telefone finalmente tocou no quarto 144 do Hotel Bella Muerte, onde eu estava hospedado.
- Boa tarde, Sr. Venom. Como tínhamos combinado, escrevi tudo que pediu. – disse Walter, com sua voz grave e forte.
- Tudo bem. Onde estão? – perguntei, com pressa.
- Primeira gaveta do seu guarda-roupa. Quero que acabe até quinta-feira, em duas semanas. E sem evidências de assassinato.
- Problemas de depressão, certo? – sorri.
- Exatamente. Mais uma razão por ter escolhido você. Espero que não haja falhas.
- Não se preocupe Walter. Eu não cometo erros. Mantenha contato... Mas devo estar ocupado nos próximos dias. Adeus. – desliguei o telefone.
Fui até o guarda-roupa do hotel, tirando um grande envelope branco da gaveta com um nome escrito em vermelho. “Susan Roth”. Eu o abri e comecei a ler as informações rapidamente. “Jornalista revela esquema de contrabando”...”Roth descobre a razão da morte de 80 pessoas no interior”..
Atrás, ele observou a foto dela por um tempo. Embaixo, escrito em uma pequena e apressada letra lia-se “vista muitas vezes jantando no shopping SPS”. Coloquei meu capacete, peguei minha moto e fui direto para lá.
Em alguns minutos andava pela praça de alimentação observando a variedade de restaurantes e fast-foods ao redor. Peguei um pequeno cartão do meu bolso e olhei a foto de Susan, fingindo escolher um lugar para jantar. Quando achei que não a encontraria, consegui.
Ela estava sentada em uma mesa próxima, completamente focada em sua própria comida. Me aproximei colocando a bandeja sobre a mesa, o que a fez erguer os olhos um pouco. Ela me encarou por um tempo e pude imaginar a impressão que estava fazendo. Afinal, sou alto, um pouco pálido, com olhos avelã e cabelo castanho, que cuidadosamente baguncei antes de sair de casa. A olhei de volta, com meu melhor sorriso. A foto que me entregaram parecia bem recente: cabelos vermelhos, olhos azuis profundos e vazios, sardas...
- Está esperando alguém? – perguntei, sem deixar de sorrir.
- Não. – Susan respondeu secamente.
- Posso me sentar então?
- Tenho escolha? – ela sorriu, irônica.
- Felizmente não. – me sentei. Pelo olhar que ela me lançou acreditei que esperava mais alguma coisa. – Ah, desculpe-me. Sou Julian, Julian Stokes.
- Prazer. Susan Roth. – esticou-me sua mão.
- O prazer é todo meu. – sorri largamente, pegando a mão e beijando-a levemente.
Susan me olhou curiosamente, tirando a mão de perto de mim rapidamente. Comecei a puxar conversa, não desistindo mesmo que ela me respondesse de forma dura e curta. Depois de um tempo, quando passei a descrever meu maravilhoso “emprego” como cirurgião no hospital de uma cidade próxima e como eu adorava ler o jornal enquanto sentava-me em um parque, Susan começou a falar mais, dividindo alguns pensamentos da sua carreira jornalística após se formar na universidade estadual.
O diálogo durou mais do que eu esperava, e as lojas começaram a fechar. Susan suspirou.
- Infelizmente eu tenho que ir. Amanhã trabalho cedo no jornal. – ela pegou um bilhete de metrô do bolso.
- Não quer uma carona? – sorri.
- Droga. Moto?
- Com capacete incluso, é claro. – pisquei.
- Certo... Moro na 22 com a 5ª.
Eu a levei até minha moto, com ela logo atrás. Isso estava sendo muito mais fácil do que eu tinha planejado. Susan me segurou fortemente até chegarmos à frente de um prédio alto e velho, com várias janelas quebradas e tinta saindo das paredes.
- Obrigada pela carona. – Susan me devolveu o capacete.
- Quando posso te ver de novo, Susan? – sorri.
- Bem, quem sabe, não é? – ela riu.
- Mesmo lugar amanhã, talvez?
- Talvez. Se você conseguir lembrar onde estávamos... Posso deixar você sentar de novo. Boa noite, Julian.
Eu a observei entrando no prédio, com um último aceno antes de passar pela porta. Assobiei baixo. Acho que jornalismo não dá um bom lucro, afinal... Dei uma risada curta e fui embora.
No dia seguinte me aprontei rápido, mas tentei me arrumar melhor. Tinha que impressioná-la ainda mais então coloquei a melhor polo que tinha, combinando com um jeans, e trabalhei duro para ajeitar o cabelo para fora dos olhos. Me olhei no espelho e duvidei que ela fosse resistir, saindo.
O lugar estava mais cheio que no dia anterior. Como não tinha certeza se eu devia chegar à mesa já com meu jantar, tentei seguir os mesmos passos que no dia anterior. Com tantas pessoas me confundi por um momento, mas encontrei aquele cabelo ruivo cacheado da minha vítima finalmente. Me aproximei com um olhar profundo e sorrindo amplamente.
- Boa noite, Susan.
- Julian. Já estava faminta… - Susan começou a se levantar.
- Por favor, não se incomode. Posso te trazer comida. – sorri ainda mais – Alguma preferência?
- Só me traz o que você for comer mesmo. – deu de ombros.
Eu pisquei e segui para um dos fast-foods comprando dois sanduíches e voltando rapidamente.
- Você nunca se importa com o que come? – perguntei.
- Não, pelo menos desde que comecei a escrever para o jornal. O estágio era duro, pouco tempo para comer. Ou qualquer coisa, na verdade. – ela riu – Nunca pensei que seria a fase menos trabalhosa da minha vida.
- O que quer dizer?
- Bem, ir atrás das minhas histórias dá tanto trabalho... Mesmo que por curtos períodos. Não é fácil encontrar criminosos, sabe. – engoliu um grande gole de refrigerante – Pode demorar meses. E geralmente não desisto de encontrar quem estou procurando... Afinal de contas, ainda não falhei.
Eu pisquei algumas vezes, chocado. Não pude deixar de pensar em mim quando ela disse essas coisas... Mas é claro que não. Me esforcei para mudar de assunto - péssima ideia. Susan não era nada como parecia. Não era nada sensível – gostava de filmes violentos. Nem frágil – bebia e comia principalmente coisas fortes. Tão... Parecida comigo que estava ficando assustado. Tinha que conquistá-la logo. Pelo menos não tinha que mentir para conseguir isso… As semelhanças estavam fazendo isso por mim.
Susan deixou que eu a levasse para casa de novo. Assim que ela desceu da moto, perguntou:
- Quando nos vemos de novo?
- Quando você pode? – sorri.
- Domingo? Está passando um filme bom no cinema aqui perto.
- Parece bom. Aquele de terror?
- Exatamente. – ela sorriu – Espero você lá.
- Não quer que eu te busque?
- Não. Tenho que passar no jornal primeiro.
- Tudo bem. Te vejo domingo então. – peguei a mão dela, a beijei e fui embora, sem olhar para trás.
Domingo chegou cedo e tarde demais ao mesmo tempo. Eu não queria vê-la de novo, mas tinha certeza que ela ainda não tinha se apaixonado e isso faria tudo mais difícil do que devia. Suspirei enquanto me olhava no espelho, imaginando o que mais aquela mulher tinha, mas empurrei isso pro fundo da minha mente o mais rápido que pude.
Quando cheguei no cinema ela já estava me esperando na fila para comprar ingressos. A calça preta que ela usava era bem justa e as curvas estavam tão a mostra que não pude deixar de ficar olhando por um tempo antes de parar a seu lado, assustando-a. Sorri, tentando não olhar mais.
- Olá, linda. Você está maravilhosa. – murmurei no ouvido dela.
- Obrigada. Você não está nada mal também. – ela corou.
- Que tal eu comprar os ingressos enquanto você busca a pipoca?
- Parece bom. Vou te esperar lá.
Não consegui evitar assisti-la até que ela sumisse dentro do prédio. A fila não demorou tanto quanto eu queria... Ficar perto dela estando tão bonita era difícil. Por um momento achei que ela sabia disso. Mas era loucura, claro.
Quando o filme começou ela me deixou passar o braço atrás de seus ombros e ainda se aproximou. Fiquei agradecido pelo escuro. Tenho certeza de que corei e isso era ridículo. Após um tempo pensando, concluí que eu poderia curtir meu trabalho antes de terminá-lo... Ao menos um pouco.
O filme acabou sendo mais assustador do que eu pensei e Susan aparentemente notou o mesmo, já que ela ficava escondendo o rosto em meu ombro várias vezes. Todas as vezes pude cheirá-la... Era tão doce que não consegui me controlar. Em uma das vezes me aproximei e notei que ela não se afastou. Então a beijei.
Foi o meu primeiro erro.
Algumas horas depois estávamos em frente à casa dela. Combinamos outro encontro para terça e eu sabia que teria de ser o último. Estava arriscando demais.
Depois de três outros encontros, Susan virou para mim sem sair da moto.
- E então? Mais planos?
- Estive pensando em ir a outro lugar domingo... Sei de um ótimo restaurante de massas, não muito longe.
- Qual é o nome? Para eu ler as críticas, sabe? – Achei que Susan soou irônica.
- Bella Muerte. Pratos ótimos. Vinhos fantásticos. Se você achar a companhia boa…
Susan riu, concordando com a cabeça.
- Oito horas?
- Em ponto. Te espero lá. – pisquei.
Susan riu mais uma vez e entrou. Tudo ia como planejado: ela estava apaixonada e não desconfiava de nada. Agora tinha uns dias para encontrar as pílulas, bolar o bilhete de suicídio... E minha passagem pra Austrália.
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