segunda-feira, 29 de outubro de 2012

3 - Sem Titulo


Acordei sozinho no dia seguinte, sem ter certeza do por quê. Olhei ao redor e Susan não estava lá. Mas ouvi barulho de água vindo do banheiro... Ela devia estar tomando banho. Me espreguicei enquanto sentava, e lembrei da noite anterior.
Acreditei mesmo que acabaria muito bem até ela apagar durante os beijos. Eu a segurei e tentei acordá-la. Como não funcionou, fiz o que todo homem faria. Carreguei-a até a cama e a deixei lá, pegando o colchão reserva para que eu dormisse. Fui tomar um banho e notei que meu ferimento era somente superficial, então só o limpei e fiz um curativo rapidamente. Quando voltei para o quarto, Susan estava deitada de lado, respirando profundamente, com as costas cheias de sangue. Eu realmente sou médico, mesmo tendo inventado o emprego no hospital. Imaginei que ela estaria anestesiada pela adrenalina misturada com o álcool, então peguei meu kit de sutura e passei a dar pontos nas costas dela. Susan nem se moveu durante o processo, mesmo o corte sendo tão longo quanto seus cachos ruivos.
Não pude evitar observá-la por um tempo antes de dormir. Estava muito cansado por algum motivo.
Saindo das lembranças me levantei e troquei de roupa. Ao abrir a janela o dia estava ensolarado, com algumas nuvens de chuva ao fundo. Suspirei. Pelo menos as malas estavam feitas para a viagem à Austrália... Cujo avião partiu algumas horas antes. Eu ri. Estava com problemas maiores do que Susan podia imaginar…
Ouvi um resmungo no banheiro e tentei abrir a porta. Como estava trancada, falei alto:
- Você está bem?
- Minhas costas estão bem. O corte do pescoço dói. Preciso de alguma coisa pra usar, já que você arruinou meu vestido.
- Como o que?
- Qualquer coisa, John. Não é como se eu tivesse escolha.
Procurei minhas roupas mais justas e bati na porta. Susan a abriu e fechou rapidamente, aparecendo vestida pouco tempo depois. Tentei me controlar, mas acabei rindo e tomando um soco em meu braço. Ela teve que dobrar um bom comprimento da calça e ergueu as mangas da camisa também.
- Agora aos negócios. Você disse que acabaria o serviço hoje?
- Tinha até terça. Suponho que ficaremos bem até lá.
- Só até que eles me vejam com você. Então terão duas opções: te matar ou me pegar quando estiver sozinha. – ela suspirou.
- Você não ficará sozinha. E eles não conseguiriam me pegar. – dei de ombros – Planos?
- Preciso ir para casa, de preferência sem ser seguida.
- Ok. – peguei um chapéu e passei a ela – Vamos fazer o seguinte: você sai pelas escadas de emergência e me encontra no estacionamento 24 horas da esquina. Eu vou pagar a conta e te encontro lá em 15 minutos. Trato?
- Como vou saber que você vai aparecer? – ela perguntou secamente
- Do mesmo jeito que eu não tenho ideia se você não sairá correndo para contar a alguém sobre mim. – retruquei amargamente – Agora vamos.
Susan bufou, saindo pela janela. Fui à recepção para pagar a diária, observando intensamente todos ao redor. Só tinha uma idosa e o jovem carregador. Ninguém pareceu suspeito. Na rua continuei cuidadoso, observando todos em volta, andando rápido.
Quando entrei no estacionamento não pude evitar de ficar feliz quando vi Susan sentada em minha moto, com seu cabelo escondido no chapéu. Ela sorriu espertamente para mim enquanto colocava o capacete, dizendo:
- 29 com a 6ª.
Me senti um idiota. Claro que ela não deixaria um estranho levá-la para casa no primeiro encontro e eu fui enganado. Maldita arrogância. Dirigi sem falar nada.
A jornalista na verdade morava em uma vizinhança de classe média com casas muito parecidas. Quando nos aproximamos de uma, com muitas flores nas paredes, ela pediu para parar. Era uma casa linda e depois de entrar não era diferente. Subimos para o segundo andar.
A sala tinha todas as paredes brancas com alguns quebra-cabeças pendurados. A mobília era simples, de madeira, e o único luxo era uma grande televisão sobre a prateleira de mogno perto da porta. A cozinha era aberta para a sala de estar, também branca. Quando entrei no quarto dela, era tudo diferente. Toda a mobília era escura e as paredes cobertas com histórias de jornal. Pude perceber que a maioria eram de Susan, mas atrás da porta tinham algumas que não seguiam o padrão.
“Morte estranha em hotel de uma pequena cidade
Na manhã desta sexta-feira um corpo foi encontrado em um banheiro do Hotel Compris. O corpo pertence a um homem ao redor dos trinta anos, encostado no canto de um Box, aparentemente após um suicídio. Mas não foi necessário muita investigação para notar em seu colarinho, nada escondido, um borrão de batom vermelho, o que prova que havia uma mulher com ele.
Esse é o segundo assassinato nas últimas semanas com as mesmas características. O outro aconteceu na sexta-feira passada, com um homem ao redor dos quarenta anos. Ninguém sabe a verdadeira razão por trás destes crimes, e a polícia não está dando muita importância a eles. Ambos os corpos foram reconhecidos como matadores de aluguel. “
Foi assim que ela me descobriu então. Pesquisava assassinatos. Típico de quem quer ser morto. Sobre a mesa estavam alguns artigos com passagens em marca-texto: “Não há informações sobre o assassino, exceto que ele é um homem”...”A empregada que passou perto do quarto ouviu barulhos abafados e sons de beijos, acreditou que eles fossem um casal comum”...”Análise de sangue mostra remédios antidepressivos, mas a forma que a bala entrou no corpo da vítima faz a cena suspeita”...
- Você é óbvio para quem te espera. Eu só tinha que ter certeza. – Susan disse do meio de seu grande guarda-roupa.
- E como você soube com somente estes?
- Reuni uns fatos, conversei com algumas pessoas. Além disso, você é homem, atraente, tinha muitas opções de moças solitárias para se sentar que estavam realmente interessadas no shopping. Você mentiu perfeitamente e me olhou como se quisesse encontrar qualquer fraqueza emocional que eu pudesse ter... E a ideia de jantar em um pequeno hotel fechou tudo.
- Bom, você me acha atraente. E faz tudo parecer tão simples. – bufei, me sentando – Como você ligou todos a mim?
- Mesmo tipo de crime, cenário e vítimas. E eu fiz o último. Reconheci seu cheiro enquanto estávamos na moto.
- Então devo parar de usar perfume. E matar alguns caras para variar. Mais alguma dica? – perguntei irônico.
- Sim. Mude de carreira. – ela jogou as roupas emprestadas em mim, indo para a sala de estar.
- Então? O que agora?
- Esperamos. É quase hora do almoço.
Concordei, me encostando à parede enquanto observava Susan no sofá, vendo TV. Quando ouvi a campainha me assustei, tirando a faca instantaneamente.
- Não seja ridículo. Guarda isso. – ela disse impaciente, abrindo a porta – Bom dia, Marta.
- Bom dia, Susie, querida. Eu estava tão preocupada quando não te ouvi voltar noite passada! Vim ver se você está bem e te chamar para o almoço.
- Ah, obrigada, muito atenciosa. – ela sorriu – Vamos dizer que tive uma noite e tanto. – me apontou com a cabeça.
Marta entrou. Ela era uma idosa muito pequena, cheia de rugas, com óculos grandes que deixavam seus olhos castanhos arregalados. Me olhou de cima a baixo, o que me deixou envergonhado, sorrindo para ela.
- Que bom gosto, Susie. Ele me lembra do meu primeiro encontro. Venha almoçar também... Como é seu nome mesmo?
- Julian, Dona Marta. Prazer em conhecê-la. – sorri.
- Igualmente. Vamos descer então.