Tudo estava pronto no domingo. Estava terminando de dar o nó em minha gravata às sete e meia. Sorri para o espelho, extremamente confiante, como sempre, espalhando meu cabelo sobre os olhos. Para me fingir de ansioso resolvi esperá-la já à mesa, então desci ao restaurante.
Pontualmente Susan entrou, com um vestido muito curto e botas altas, toda de preto. Eu nunca a tinha visto tão bonita. Pisquei para tirar esse pensamento da minha cabeça, beijando a mão dela enquanto sentava.
- Velhos hábitos, Julian? – ela sorriu.
- Só para damas charmosas como você.
Ela riu, escolhendo seu prato tão rapidamente quanto o vinho que mais a agradava. Susan começou a bebê-lo cedo, como eu torci. Conversamos muito, rimos muito. Ela parecia estar ficando alterada e eu comecei a tirar vantagem disso, usando vários flertes e brincando com suas mãos enquanto ela me olhava intensamente.
- Bem, melhor eu parar de beber. Eu tenho que conseguir voltar pra casa sozinha depois... – ela riu.
- Você vai me deixar aqui... sozinho? A noite toda? – fiz um rosto triste.
- O plano original era esse... Mas se você quiser muito, posso até pensar em mudá-lo.
Ela disse isso com uma voz baixa e sexy, com um olhar muito forte. Não pude evitar pensar que eu queria, e muito. Mas só para matá-la, claro! Claro?
Mesmo em dúvida pedi a conta. Susan entrou no elevador e apertei o andar rapidamente. Ela brincou com minha gravata e encostava e desencostava seus lábios nos meus, obviamente me provocando. Eu a prendi contra a porta enquanto a destrancava, me aproximando.
Ela entrou no quarto, deixando um cheiro doce que me deixou avoado por um instante. Quando recuperei meus sentidos, Susan estava no banheiro, sentada na banheira com uma das mãos sobre a torneira do chuveiro.
- Então... Como vai ser? – ela sorriu ironicamente.
- Alguma... Preferência? – eu respondi surpreso. Claro que a visualizei lá. Mas só depois de morta.
- Eu achei que aqui era o lugar perfeito. – ligou o chuveiro indo para o lado oposto – Boa proteção acústica. Ninguém vai ouvir seu tiro, John.
- Do que você me chamou? – minha boca abriu em choque.
- John, Julian. De John. Seu nome verdadeiro. Certo?
- Achei que estivesse bêbada e confusa depois da garrafa quase inteira de vinho que tomou. – eu disse, sério – Estava errado, obviamente.
- Definitivamente. – ela riu – Olha só o matador que enviam para mim. Não escolheria nenhum outro para o serviço... Estive gostando dos seus métodos demais. E já ouvi que fica ainda melhor no final.
- Então sabe o que vai acontecer. Muito interessante. – disse, irônico – O que vou fazer agora?
- Você vai atirar em mim e então cortar meus pulsos. Já derrubei as pílulas na pia e no caminho, como pode ver... – ela ficou quieta quando me aproximei e coloquei a arma em sua barriga.
- Ninguém vivo sabe essas coisas. – sussurrei – Últimas palavras?
Inacreditável. Ela riu. Dei alguns passos para trás e atirei na altura da cintura dela. Como ela continuou rindo, ergui minhas sobrancelhas, surpreso. Susan se levantou e jogou a bala aos meus pés, tirando-a do colete a prova de balas que devia estar usando sob o vestido.
- Não dar crédito suficiente a seu serviço pode se tornar um grande erro, John Venom. Ou você achou mesmo que eu não sabia que viriam atrás de mim?
- Achei. Você não parece tão esperta. – eu a deixei passar de volta ao quarto.
- Eu não posso ser burra e encurralar Walter como tenho feito, posso? Falta de inteligência da sua parte. – Susan bocejou.
- Bêbada você não devia lembrar nem seu nome.
- Nem bêbada eu fico burra. Até onde eu sei, pelo menos. – ela se deitou na cama, fechando os olhos.
Eu a observei. Agora que ela sabia quem eu era, não poderia deixá-la viva. Pelo contrato, um tiro na cabeça estava fora de cogitação... Seria impossível que ela atirasse na própria cabeça com o nível de medicamentos em seu sangue – tinha planejado que ela tomasse os remédios antes. Concluí que não tinha escolha. Mesmo que fosse contra o que eu mais acreditava, que era inteligência no lugar da força.
Peguei a faca que mantinha em minha meia. Me aproximei silenciosamente de Susan e pressionei a arma contra seu pescoço, segurando-a deitada. Ela deu um pequeno salto de susto, abrindo um pequeno corte cedo demais.
- Achei que não faria isso. Que fosse contra seus princípios.
- Não tenho princípios. – sussurrei.
- Vá em frente então. Aperte mais. – ela me encarou, séria.
- Ah, não. Devagar é melhor... Aumenta a dor. – apertei a lâmina levemente, abrindo o corte o suficiente para que sangrasse.
- É, você tem razão. – se encolheu levemente – Bom, vai valer a pena, se as histórias forem reais.
- Quais? – me aproximei, pressionando um pouco mais.
- O longo beijo... Antes da morte... – sussurrou, deixando uma lágrima de dor escorrer por seu olho.
- Não se preocupe. Vai descobrir. – sorri ironicamente, depois de ter soltado a faca um pouco.
Pela primeira vez me apiedei de uma vítima. Foi a primeira lágrima que me doeu. Me aproximei de seus lábios vermelhos, apertando a faca até ouvi-la soltar um gemido de dor, e então a beijei.
Este foi meu segundo erro.
Pois algo estranho aconteceu ali. Susan me beijou de volta de uma forma que não tinha feito antes... Tinha paixão, luxo, desejo... Foi tão intenso que soltei minha arma sem prestar atenção até ouvir o baque surdo que fez no chão frio. Antes que eu pudesse me mover, ou sequer pensar, me vi embaixo de Susan que pressionava a mesma faca contra meu pescoço – da maneira errada, devo dizer, com o cabo.
- Mas que…
- Shh. Achou mesmo que ia ser fácil? Estava errado. – ela se curvou sobre mim, beijando meu pescoço até minha orelha – Se tivesse pesquisado um pouco mais... Talvez não estivesse nessa situação.
- Se você não fosse tão curiosa e metida a detetive, você não teria de estar aqui. – respondi – Você podia estar fe...
Não consegui continuar porque ela pressionou o cabo da faca contra meu esôfago me deixando sem fôlego. Então ela tirou uma agulha da sua bota, apontando para minha jugular. Se curvou de novo, seu nariz tocando o meu.
- Últimas palavras, John?
- Sem... Chance...
Tive que pular para beijá-la, mas consegui o que queria: Susan amoleceu e pude jogar sua agulha para longe e recuperar minha faca, cortando as costas dela. Ela se encolheu e foi a chance que tive de colocá-la para baixo, segurando seus braços com uma de minhas mãos. Ergui meu outro braço e me preparei para dar um golpe, mas fui puxado pela gravata com a mão que Susan conseguiu soltar e fui beijado novamente.
Sem ter soltado a faca, uma dor aguda me atingiu no flanco e percebi estar sendo apunhalado. Eu a soltei e joguei a arma para longe de nós dois, achando que acabaríamos a luta ali. Pelo contrário, ela me chutou entre as pernas e correu para a lâmina, sendo jogada ao chão quando pulei atrás dela, desequilibrado com a dor.
- O que é que tem de errado com você? – eu gritei.
- Você! E quero acabar com tudo que tem de errado comigo! – ela tentou se arrastar para longe.
- Talvez pudéssemos ser mais razoáveis! – eu a puxei pelas pernas, afastando-a da faca – Pensar em um acordo ou alguma coisa!
- Que tipo de acordo pode-se fazer com um assassino?
Susan usou o salto da bota para apunhalar meu braço e pegou a faca. Eu desviei de alguns golpes até conseguir segurar as mãos dela, colocando-a contra a parede com um braço torcido e o outro seguramente preso com meu corpo. Uma das minhas pernas prendia as duas dela contra a parede para evitar surpresas. A jornalista estava completamente paralisada.
- Agora, vamos conversar, como pessoas civilizadas. – sussurrei no ouvido de Susan.
- Você não tem nada de civilizado. – ela respondeu entre lágrimas.
- Se eu não tivesse você não estaria aqui agora, não é? – a beijei pelo pescoço e por um de seus ombros, expostos graças ao corte que se estendia por parte de suas costas.
- Não. Mas eu não teria caído em seus truques e essa situação embaraçosa... – teve um arrepio depois de um beijo que dei em sua orelha – seria dispensável.
- Eu até que gosto dessa situação embaraçosa... Assim como gosto...
- Cala a boca. Anda, acaba o serviço. É a única coisa que você gosta de fazer, não é? – Susan virou sua cabeça para longe de mim.
- Podíamos fazer um acordo. – eu segui seu movimento, sem deixar de beijar sua pele – Que beneficiaria a nós dois.
- O que você propõe? Que eu pule da janela e você fica feliz ou o que? Que eu fique quieta para que você me deixe ir e fique vulnerável para o próximo assassino que eles mandarem? – ela tentou se soltar, em vão.
- Eu proponho... – a coloquei de frente para mim, separada só pelo comprimento de nossos narizes – Que você me contrate enquanto caçamos Walter. Podemos fazer um plano, o encurralamos e o matamos. Ou o prendemos, está bem. – dei de ombros depois do olhar enojado dela – Que tal?
- Imprudente e absurdo. E aposto que caro. – ela me olhou fixamente – Sem termos extras?
- Poderia pensar em alguns, mas você deveria estar de acordo... – eu sorri, provocando-a.
- Eu pago o que ele está te pagando. Nem um centavo a mais. E só 15% adiantados.
- Feito. – soltei seus braços, puxando-a para mais perto – Mais alguma coisa?
- Só esta noite. – e me beijou.